Nesse e nos próximos posts pretendo mostrar um pouco da conturbada e interessante história e geopolítica daqui, que tem um caráter bem singular, por ter sido república soviética por 40 anos e hoje em dia é considerada uma fronteira da União Européia e da OTAN com a grande e temida Rússia.
As histórias são muitas, mas atento desde já que as que tratarei aqui serão de um ponto de vista de um brasileiro casado com uma cidadã de origem estoniana, o que pode diferir bastante de um brasileiro casado com uma cidadã estoniana de origem russa. Em ambos os casos, por mais que tentemos, pode ser um pouco difícil ser 100% imparcial; já que você acaba ouvindo mais um ponto de vista da história do que outro. E mesmo quando você convive com os dois lados ao mesmo tempo (no seu ambiente de trabalho e estudo), seu ponto de vista pode acabar completamente bagunçado. Vi, então, que, deste modo, não existe uma verdade absoluta, mas sim versões diferentes de uma mesma história. O que eu posso passar pra vocês são as percepções de um brasileiro vivendo mais proximamente do lado estoniano da História.
Pra começar, um resumo relâmpago da formação da Estônia como nação e identidade local:
Os estonianos são um povo primo (pra não dizer irmão) dos finlandeses (mais sobre isso num outro post) que vivem mais ao sul do Golfo da Finlândia - na pontinha mais ao norte do mar Báltico. Apesar de não terem nada a ver com os outros povos que habitavam essa mesma região (tema pra outro post) eram igualmente camponeses humildes, com uma cultura e língua própria. Viviam eles, contudo, de um modo muito simples, como camponeses sem muita instrução.
Apesar de terem feito parte da Liga Hanseática, um grupo de cidades que floresceram nos idos de 1200 com um intenso comercio entre elas no Norte da Europa (e Tallinn era meio que o ponto final dessa linha) historicamente os estonianos foram dominados por diferentes impérios em diferentes momentos, a mencionar os impérios da Dinamarca, Suécia (este último que fez muitas benfeitorias à nação, como a criação da Universidade de Tartu) e Rússia. Em meados do século XIX, apesar disso, com uma certa influência germânica, que não só organizou a língua estoniana como gramática, mas ajudou a desenvolver um sentimento de nação ao povo estoniano, que fez surgir o "Despertar Estoniano". Movimento o qual foi se desenvolvendo lentamente e em dado momento acabou aproveitando a bagunça que acontecia na sede do Império Russo que a dominava, por conta da Revolução Bolchevique, pra declarar a Independência da Estônia em 1918, sendo reconhecida apenas em 1920.
Depois disso a Estônia viveu um momento de grande evolução, finalmente podendo caminhar com suas próprias pernas, e nessa época se tornou um país bastante desenvolvido, mais até do que a Finlândia naquele momento. Até que em 1939 Stalin fez um acordo com Hitler, dividindo a Europa, e a Estônia estava na área de influência dos soviéticos*. Tempos depois, mesmo alertado por seus espiões, Stalin foi traído por Hitler e aí sim entrou na Guerra contra ele, e após a vitoria não só manteve seus domínios como expandiu sua área de influencia até a Alemanha Oriental.
Com o surgimento da Perestroika nos anos 80, a Estônia foi uma das primeiras repúblicas soviéticas a aproveitar a permissão de livre iniciativa. Além disso, dispunham de uma boa vantagem competitiva, uma vez que o povo Estoniano era disciplinado e trabalhador como seus irmãos finlandeses e também sabiam de absolutamente tudo que se passava do lado de lá da Cortina de Ferro. Isso devido à mínima distancia da Estônia com a Finlândia (80 km de uma capital à outra), todas estações de rádio e TV finlandesas pegavam tranquilamente na Estônia.
Em 1991, mais uma vez aproveitando-se de uma confusão na capital Russa, os países bálticos proclamaram sua re-independência. Desde então a Estônia evoluiu bastante econômica e socialmente. Vale destacar ainda que, passou a se sentir mais protegida de possíveis ameaças advindas da Rússia ao fazer parte da OTAN em 2004 e alcançou todo um novo status nesse mesmo ano quando passou a fazer parte da União Européia.
Em 2011 entrou para a Zona do Euro, substituindo a antiga moeda, a Coroa Estoniana (Eesti Kroon).
Assim, terminamos esse post introdutório sobre a Estônia. Se gostaram desse, aguardem o próximo, pois tem muito mais de onde esse veio!
*= Apesar de esperada, até hoje o governo da Rússia não pediu desculpas formais pela invasão e anexação dos países que fizeram parte da União Soviética. Um dos motivos alegados, e usados como argumento por todos com sua ideologia mais alinhada à visão de Moscou, foi que a presença soviética foi clamada pela população desses países, e legitimada através de eleições "democráticas" realizadas nesses países pelo próprio governo soviético.


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